Espírito Santo na dobra do clássico com contemporâneo

Espírito Santo na dobra do clássico com contemporâneo

Rembrant e Michelangelo são manos?
(Ivo Godoy)

Duas exposições que acontecem entre março e junho de 2010 inserem a discussão barroca e renascentista simultaneamente com Rembrant e Michelangelo.

A erudição posta lado a lado com o que é apresentado como contemporâneo, é a bola da vez em Vitória. Na busca de trazer o espectador impregnado de reproduções imagéticas para os espaços assépticos e cultos dos museus de arte faz-se uma abertura para desconstrução desse lugar que é resultado de um processo de sacralização dada pela História da Arte.

Essa abertura está acontecendo no museu MAES onde os grafites de Fredone, Somal, Ficore, Iran e Pirata James nas paredes do térreo do museu dividem espaço com a exposição das gravuras de Rembrant. A iniciativa do MAES confronta produções distintas no tempo, no conceito e no espaço e isso gera um conflito contemporâneo que diariamente encontramos pelas mídias, academias de arte, becos e galerias do mundo inteiro:

– Grafite é arte?

– Arte está para o grafite assim como o grafite está para arte?

Seria uma via de mão dupla? Se assim for vamos ter que chamar nosso amigo Michelangelo de grafiteiro, afinal o cara mandou um “trampo” nas paredes da Capela Sistina toda.



– O cara é mano!! Sacô? Grafiteiro do sacro!

A arte da sua época estava quase que totalmente subordinada a temas religiosos e a grande maioria das obras eram expostas em igrejas, catedrais, monastérios, basílicas, etc. Estes espaços literalmente sacralizavam a arte.

Mas e o grafite? Quem institui o que é grafite? O grafiteiro? O lugar da execussão da obra? Graffite está atrelado a intervensão urbana? Grafite é anárquico?

Enfim, no final é todo mundo mano grafiteiro: os rupestres com suas cavernas, os manos dos afrescos nos templos romanos, nas catedrais góticas, capelas renascentistas, palacetes, até o motorista que da uma freada brusca e marca o asfalto.

Opa! Exagero? Pois eu te digo que grafite é um conceito que você ajuda construir quando interage com a cidade, com campo, com o mundo. É ativismo!

Quer pirar? Da uma olhada no site http://graffitiresearchlab.com/ . Tem gente juntando um led (aquelas lampadinhas de baixo custo de energia), uma bateria de relógio e um imã por uma fita adesiva e jogando nos ônibus à noite. As lotações ficam todas iluminadas com algumas centenas de leds e a galera de lá ta chamando isso de grafite, ou melhor, contextualizando como “Graffiti” (no italiano graffiti, plural de graffito).

O momento é perfeito para levantar a questão do grafite, mesmo porque Moacir dos Anjos já acertou a participação dos “pixadores” da 28ª Bienal de São Paulo como “artistas” na 29ª Bienal deste ano (Folha). Percebeu? De pixador a artista. Ou seja, agora a discussão tá pautada pela própria instituição ARTE. Na verdade não foram eles que pautaram isso já vem acontecendo há algumas décadas, séculos e milênios. Mas se até a Tate Modern deu a sua fachada para os Gêmeos grafitarem. Ah meu amigo! Agora vai! Virou moda, agora vai!!

Então:

– Museu MAES. Muita coragem e desprendimento. Gostei de ver. Por que ao acolher um grafite em suas dependências quer dizer das duas uma: ou o museu está querendo engolir o grafite como arte ou o museu inverte seus parênteses para fora e acaba por negar seu status de museu de arte, como dizia nosso ilustre grafiteiro dos sentidos, Hélio Oiticica:

– O museu é o mundo!

Na verdade dentro dessa discussão eu me recordo que na exposição Conspectus (dez/2006 a fev/2007) nosso ilustre pintor-fotógrafo, Lando, apresentou suas ampliadas fotografias nas vitrines do MAES voltadas para fora do museu. Curiosamente e por sorte dessa reflexão aqui levantada é que os motivos apresentados nas fotos de Lando eram os espectadores do Louvre. Culto não? As fotos acabaram por tomar uma dimensão conflituosa de intervenção urbana voltadas para av. Jerônimo Monteiro. Para fora do museu. Ta vendo? Inversão dos parênteses de dentro para fora.

Na mesma exposição o artista Gabriel Boren apresentou uma vídeo-instalação, que partia de um desdobramento da instalação Espelho (Ufes) e Reflexo (MAES) . O artista estabeleceu um percurso no mapa de vitória onde ele instalou um trabalho a cada intervalo percorrido a pé e de ônibus em vitória, fechando um ciclo de três instalações: no Galpão do IBC (Jardim da Penha), Cemuni II – UFES, Museu MAES (Jerônimo Monteiro- Centro) e novamente Galpão do IBC. Em cada intervalo da instalação a obra parecia transmutar ou confundir sua apresentação: hora era performance, outra vídeo-instalação, outra intervenção urbana e por que não, monumento.

O movimento de colocar o artista no pedestal de “Artista”, assim como, arte como “arte”. A cada dia se torna mais oscilante, arte e vida é mais presente em nosso conflituoso cotidiano. Extrapolar os limites é de certa forma pautar arte contemporânea e pautar o contemporâneo resgatando o clássico pode ser uma revisão na convenção Arte.

Uma dobra do clássico com o contemporâneo.

Leia e veja mais:

http://www.portalyah.com.br/?id=/conteudo/conteudo.php&cd_conte=7847

http://www.secult.es.gov.br/?id=/espacos_culturais/hotsites/maes/exposicoes/passado/materia.php&cd_matia=669

http://guiame.com.br/v4/38357-1755–quot-apos-Pixo-apos-questiona-limites-quot-diz-curador-da-Bienal-de-SP.html

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