Artigo publicado no Jornal A Gazeta em 10 de Abril de 2009 – Vitória/ES
O poder de atração de uma pintura, grande ou pequena, vem da capacidade de nos extrair do mundano e do cotidiano. Uma experiência de troca que se compara muito com o sentido antropológico de rito de passagem, que a ciência define como necessários para dar sentido à mudança de posição dentro do sistema. Em ambos os casos, o espectador ou o noviço são retirados de sua sociedade, ficam invisíveis socialmente e retornam ao seu universo com uma nova perspectiva. Implica um exercício que nos faz mudar o ponto de vista e, com isso, alcançar uma nova visão de mundo, quase que como um retorno triunfal. Cada troca é uma prova de que ainda vale a pena abstrair as demandas terrenas para transcender a percepção.
É possível afirmar que o grau de impacto de uma troca se deve em parte à surpresa estética do objeto de arte. Esse é justamente um dos aspectos mais característicos do trabalho de Thais Apolinário (que integra a coletiva “Vendo”, em cartaz até 30 de abril no segundo andar da Galeria Homero Massena, Centro de Vitória). Com alto poder de provocação e sensibilidade inquieta, de reflexos suaves e elegantes, a artista consegue combinar com maestria elementos plásticos com a ação do acaso. A sua pintura parece pertencer inteira à cultura da experiência, por isso provoca, não é um resultado pragmático, preso, alicerçado a um programa. É um processo livre, desprendido, que sempre surpreende.
Acompanho seu trabalho há algum tempo. Possivelmente o mesmo tempo que pesquiso arte contemporânea. Se a questão sobre a autonomia dos meios artísticos foi um debate inaugurado em 1979, quando da publicação do artigo “A Escultura no Campo Ampliado de Rosalid Krauss”, o processo de Apolinário aponta para uma discussão sobre a produção em pintura. Ainda que o campo ampliado esteja disseminado pela arte contemporânea, algumas categorias e gêneros tradicionais, como a pintura, se mantêm até os dias atuais com preceitos e narrativas atrelados a julgamentos ultrapassados.
A nova série “Cola”, uma espécie de camada crua, postula a autônima do processo de pintura de todas as possíveis formas de representação formal. A partir de uma pesquisa em tintas, a artista consegue congelar o gesto e o processo. Da técnica de pintura se retirou a camada pintura, dissecando-a e expondo a fragilidade do gênero. O resultado gerado é uma película pura e simples de pintura, que extrapola o bidimensional. Sem suporte, camadas ou proteção, o objeto é a exibição crua e revirada do processo.
A discussão aqui não chega ao campo da escultura, pois neste caso existe o processo produtivo da pintura. O desenvolvimento dessa série alcança autonomia do suporte, mas não chega a se descolar de sua categoria, pois sua concepção está ainda atrelada aos meios clássicos, contudo este translado acaba por trazer o objeto mais para dentro dele.
A audácia desta artista pintora de remover o seu trabalho dos tradicionais meios de representação é fenomenal, dissecá-lo é por em prova o meio de sobrevivência do gênero. E, mesmo assim, ela retirou, dobrou, torceu e revirou de cabeça para baixo o seu objeto. Esse é, com certeza, um fato que gera importantes revisões no campo da pintura em nossos dias.
Por Henrique César Guimarães – graduando em Arquitetura e Urbanismo, pesquisador do Grupo de Pesquisa e Projetos Territoriais Conexão Vix, do Departamento de Arquitetura da Ufes e colaborador do HNA.
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